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O que é xamanismo

Xamanismo poderia resumir uma terapia filosófica que trata do espiritual de uma maneira mágica, com uma pitada de ciência e fundamento. Não ajudou né?! Vamos ser práticos então:


Etimologicamente é uma derivação da palavra SAMAN da língua Even, que poderia ser traduzido como ‘aquele que enxerga’, embora há quem defenda que deriva da uma língua mais antiga, o sânscrito. Independente de sua origem, o que podemos afirmar é que o conceito de Xamã perdeu sua essência original, daquela figura que servia de líder espiritual e curador, que estava em comunhão com energias e deuses invisíveis ligados a natureza e de grandiosidade cósmica.

A definição de Xamã nasceu assim, para definir aquela pessoa que está em evidente contato com a natureza, que a respeita e a cultua como uma entidade viva; E que manipula essa energia de maneira como lhe convir, pois o xamã é parte dessa energia, então lhe é permitido assim faze-lo.

A nomenclatura Xamã em sua essência refere-se àquele que mantém a conexão com “o grande espírito” o tempo todo e, através dessa conexão, trás a cura, a liderança espiritual e a capacidade de  estabelecer essa conexão a terceiros (e sim, através da comunhão com esse grande espírito você consegue acesso a outras coisas, mas isso é outra história).

 

Podemos alongar muito o assunto explicando e detalhando o que significa essa conexão com o grande espírito, as formas que as energias são trabalhadas e muitos outros detalhes, mas vamos resumir, para ficar bem fácil o entendimento: Xamã é alguém que cura, lidera e desperta. Para isso serve um xamã. E claro, para estar nesse patamar, o autoconhecimento de suas partes de luz e sombra são essenciais (ai que entram os conceitos sobre animais de poder, ancestralidade, espírito dos elementais e diversos outros). E muito importante: Xamanismo não é religião, é espiritualidade.

 

Os termos xamã e xamanismo, porém, tomaram uma proporção que excedeu sua origem e começou a invadir outras áreas que não teriam ligação com esses conceitos citados. Seja por boas intenções, como o neo-xamanismo ou o xamanismo universal que tentam modernizar e adaptar o xamanismo, a fim de o aplicarmos em nosso dia a dia, ou seja por ignorância ou desinformação.
 

É comum ouvir a arenga de estudiosos mais tradicionais do xamanismo que ‘tudo acabou por virar xamanismo’, que ‘as coisas estão muito bagunçadas’ e que ‘ninguem mais da atenção a tradicão verdadeira‘. E, de fato, por essa transição de um conceito tão antigo estar sendo resgatado, esses desencontros de informação irão mesmo acontecer. Há quanto tempo você ouviu falar de ayahuasca, Rapé indígena, Kambô, São Pedro, Cogumelos? Isso tudo vem do xamanismo raiz, original, dos indígenas. O redescobrimento desse termo (xamanismo) e tudo que ele engloba é recente, nos anos 2000 era muito raro ouvir-se falar disso tudo. Divergências irão aparecer mesmo.

 

Concordo com os mais tradicionalistas ao dizerem que não existe xamã de cidade, não existe alguém que poderia ter a honra de ser chamado de pajé se mora num bairro estruturado de uma grande cidade que tem pouca ligação e equilibrio com a natureza. A conexão com a natureza está falha, sim. Já vi de perto a grandiosidade que é um pajé e o que essa figura é capaz de fazer no plano espiritual e é extremamente essencial que sua morada seja em meio a natureza. Pode passar um tempo fora de sua aldeia, mas é necessário que retorne de tempos em tempos para fortalecer sua conexão. Se não precisasse morar na floresta, teria nascido na Dinamarca, não na Amazônia. Fora que um pajé é uma das colunas de sustentação da aldeia, sem essa figura, a aldeia não tem a mesma força de prosperidade, o desenvolvimento permanece falho sem um(a) pajé residente.

 

 

E tem como praticar o xamanismo na cidade?

Tem, claro! Você pode morar numa cidade grande e estar em conexão com o grande espírito! Este irá lhe proporcionar conhecimentos para se melhorar, para fazer de sua vida uma caminhada bonita e próspera. Poderá estar nessa conexão grandiosa para diversas finalidades, aliás!

 

“Mas isso vai fazer de mim um xamã”?

Ser um xamã é uma escolha de vida, é se entregar para estar nesse posto que tem uma carga de responsabilidade imensa. É um cargo que não é para qualquer um ocupar, isso garanto. Como disse, existem vertentes que utilizam conceitos, ideais e ensinamentos do xamanismo, mas um tanto adaptados ao cenário de nossa sociedade. Lembre-se que o xamanismo nasceu numa sociedade diferente, não adianta querer que o conceito inicial se adeque a sua sociedade: você tem que se adequar aos conceitos ancestrais primeiramente. Alias, muito se diz sobre a ancestralidade do xamanismo e sua importância, como alguém poderia então, querer mudar essa forma ancestral de viver de um xamã, almejando a mesma posição daquele que vive nos moldes já estabelecidos pela egrégora (em meio a natureza, em equilibrio com a sociedade que habita)? Beiraria o desrespeito chamar-se de pajé, morando num grande centro urbando cheio de prédios... o mais provável é que tal pessoa passe bem longe de conhecer o que de fato é ser um pajé.

 

“E qualquer pessoa pode ser um xamã? Eu queria ser xamã”!

Sim, qualquer um pode tornar-se um xamã, não precisa nascer na floresta -embora terá que passar um tempo nela (uma semana não conta, tá?!). Não adianta ir para uma tribo, fazer uns dez rituais e achar que é xamã. Qualquer um pode despertar esse poder adormecido, mas de todas os mestres que conheci, nenhum foi sagrado mestre de um dia para o outro, nem de um mês para o outro, nem de um ano para o outro. Para ser  sagrado mestre se necessita ser reconhecido por uma comunicade Para ser conhecido pela comunidade, necessita-se de propriedade sobre suas ações e feituras. Tal maturidade vem da prática. E prática, leva tempo!

 

“Mas fiz um curso de xamanismo, fiz duas iniciações! Uns dez rituais com ayahuasca, peyote, São Pedro, cubensis, salvia divinorum, jurema, harmala pergamun, bobinsana, alvarius bufus e rapé! Já vivênciei de tudo!”

Sendo direto: não existe curso de xamanismo. Os cursos vão lhe dar a base do que era o xamanismo e dali você vai estudar ainda mais, sob a supervisão de um mestre de verdade (nem pense em inventar que você é um ser iluminado e vai aprender sem ajuda e por conta própria os segredos da floresta e da espiritualidade). Ninguém vira xamã com curso, mas se quiser cursar o neo-xamanismo, xamanismo universal, xamanismo quântico (oi?!), ou qualquer que seja o curso de nome comercial que lhe chamar a atencão, curse! Mas seja uma pessoa realista e coerente: isso não vai lhe qualificar para cuidar de pessoas!

Quer entender o que é xamanismo, o que é ser xamã de verdade? Vá morar numa sociedade de cultura tradicional que ainda tenha suas raízes bem entranhadas na terra, que esteja em equilibrio com a espiritualidade. Vá morar com indígenas! Vivencie a cultura e a tradição de dentro!

 

Bonus:

“Um famoso disse que todo Xamã tem que ter experiência pós-morte. Tem que morrer e voltar”

O conceito de morte é muito abrangente. Espírito não morre, volta para a fonte, se renova e vira uma nova consciência, mas não morre de fato. Se a pessoa disser que precisa ‘morrer’ para ser xamã, pode ser só uma forma de dizer que se precisa estar pleno em suas viagens astrais, a ponto de deixar o corpo aqui e ir para outro lugar, depois voltar e acoplar no corpo de novo. Um xamã entenderia que ele apenas deixou o corpo e depois voltou, não que ele morreu, mas as terminologias utilizadas vão variar de um tipo de tradição para outra. É inegável que você tem que ter tido uma experiência fora do corpo. E não só uma, mas várias. Viagem astral, desdobramento e compreencão das camadas energéticas são quesitos essenciais para entender o xamanismo. Porém, fazer viagem astral não te qualifica em nada para ser um xamã, ok?! Não é porque você visitou o outro lado e voltou que está apto a guiar pessoas!

 

“Só é um xamã de verdade quem está na Quinta Dimensão?”

É extremamente complicado falarmos de dimensão, estas são difíceis de definir, cada linha de estudo espiritual vai definir de uma forma e não vou entrar nesse assunto (ainda). O que posso dizer é quem realmente entende o xamanismo, está pouco ligando se está na quinta dimensão, na quarta, na primeira, ou se está no Casaquistão! É um estado de consciência que não é importante rotular, só se vai ter certeza de uma coisa: você está lá. E está aqui. Simultaneamente. Ou não! Quem estiver preocupado em rotular como ‘quinta dimensão’ ou o que for está é perdendo tempo!